(publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Fonte Segura, por Débora Pio e Rodrigo Firmino)
Em 2018, o então candidato ao cargo de governo do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, anunciou que, se eleito, iria autorizar “a polícia a mirar na cabecinha e…fogo”. Naquela ocasião, ele também falava na compra de drones de Israel que seriam capazes de identificar criminosos e efetuar tiros remotamente. Havia ainda planos de comprar toda sorte de parafernálias tecnológicas que prometessem o combate ao crime e à prevenção de ocorrências criminais a partir de algoritmos e acionamentos a distância.
Embora aquele postulante a assumir o Palácio da Guanabara fosse forasteiro na política, a campanha bélico-tecnológica contribuiu para que assegurasse a vitória no primeiro turno. Quase uma década depois, projetos que preveem cada vez mais armamento e mais tecnologias de vigilância continuam sendo a proposta mais vocalizada por candidatos nos pleitos eleitorais, sobretudo nas grandes capitais.
Entre as grandes cidades do Brasil, o Rio de Janeiro é marcado pela expansão e consolidação do controle territorial por grupos armados. Por essa razão, costuma estar na vanguarda na testagem de aparatos de combate e controle do crime. A gestão Witzel, iniciada no contexto de intervenção federal na Segurança Pública, inaugurou o experimento da instalação de câmeras de reconhecimento facial e incentivou a implementação de uma política de segurança ainda mais militarizada, incluindo autorização para o “abate” de criminosos. Cláudio Castro, que o substituiu após o impeachment, prosseguiu fomentando tal lógica.
Apesar disso, dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados no Rio de Janeiro (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense) mostram que o investimento não proporcionou os resultados prometidos. Em 2024, cerca de 34,9% da população da Região Metropolitana vivia sob influência de facções criminosas ou milícias. Ao longo de 18 anos, as áreas sob algum tipo de domínio armado cresceram aproximadamente 130%, evidenciando a incapacidade das políticas adotadas em conter esse avanço. No caso da capital, as milícias chegam a controlar 65% do território, especialmente na Zona Oeste e regiões adjacentes, ainda que o cenário recente aponte para uma intensificação das disputas com grupos ligados ao tráfico.
Ao mesmo tempo em que se amplia o repertório tecnológico aplicado à segurança pública, observa-se uma inversão preocupante de prioridades: dispositivos sofisticados passam a ocupar o centro do debate, enquanto questões estruturais — como prevenção, investigação qualificada e políticas sociais — permanecem em segundo plano. A promessa de que ferramentas digitais baseadas em algoritmos seriam capazes de “resolver” a criminalidade rapidamente se revela mais como estratégia discursiva do que como política baseada em evidências. Como discutido anteriormente no artigo “Segurança pública, dados e território: o avanço da vigilância digital nas cidades”, há um deslocamento do foco da gestão territorial e social da violência para uma lógica de monitoramento intensivo, que pouco dialoga com as dinâmicas reais dos territórios…
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