Supercâmeras do projeto Civitas, Rio de Janeiro

Segurança pública, dados e território

(publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Fonte Segura)

O debate sobre o uso de tecnologias digitais na segurança pública costuma ser marcado por uma promessa sedutora: mais dados significariam mais controle, mais eficiência e, portanto, mais segurança. Câmeras inteligentes, centros integrados de comando e controle, reconhecimento facial, monitoramento em tempo real e plataformas algorítmicas aparecem no discurso oficial como soluções técnicas para problemas históricos e profundamente sociais. Essa narrativa tecnossolucionista, no entanto, tende a encobrir efeitos territoriais, políticos e sociais produzidos pela incorporação dessas tecnologias no cotidiano das cidades. Nas últimas décadas, as tecnologias da informação e comunicação passaram a estruturar uma nova camada de gestão urbana e da segurança, baseada na codificação da vida cotidiana. Pessoas, movimentos, comportamentos e espaços são traduzidos em dados, comparados a padrões e classificados segundo critérios de risco. Trata‑se de um processo longe de ser neutro. Ao operar por meio de classificações, correlações e previsões, essas tecnologias redefinem fronteiras, produzem zonas de exceção e reorganizam a experiência urbana sob lógicas de vigilância permanente. A cidade passa a ser tratada como um território monitorável, previsível e, idealmente, controlável.

Os grandes centros de comando e controle ilustram bem esse modelo. Vendidos como expressão máxima da integração e da eficiência, eles reforçam uma visão centralizadora da gestão da segurança pública, na qual o território é observado à distância, por telas, mapas e algoritmos. Fixos e fluxos urbanos (ruas, pessoas, veículos, eventos) passam a ser administrados como variáveis técnicas. Nesse enquadramento, a complexidade da vida urbana corre o risco de ser reduzida a indicadores operacionais, enquanto decisões políticas passam a se apoiar em uma suposta objetividade tecnológica. Exemplos recentes no Brasil ajudam a materializar essa lógica. Em São Paulo, o programa Smart Sampa aposta na integração massiva de câmeras, sensores e sistemas de reconhecimento facial, articulando diferentes bases de dados sob a promessa de respostas rápidas ao crime. No mesmo estado, a chamada Muralha Paulista amplia essa estratégia para uma escala regional, conectando municípios por meio de infraestruturas compartilhadas de monitoramento e análise de dados. Em ambos os casos, a centralização da informação aparece como eixo estruturante da política de segurança.

Além desse modelo centralizado, expande‑se uma forma mais difusa e capilar de vigilância. Câmeras privadas, aplicativos colaborativos, redes sociais e dispositivos conectados transformam cidadãos comuns em agentes ativos do monitoramento cotidiano. Observação, registro e denúncia tornam‑se práticas naturalizadas, compondo aquilo que vem sendo descrito como uma cultura da vigilância. Essa dispersão do controle não reduz seu alcance; ao contrário, amplia sua presença no cotidiano e torna mais opaca a definição de responsabilidades, limites e mecanismos de controle democrático. No plano territorial, os efeitos são profundos. A segurança digitalizada contribui para a produção de múltiplas camadas de território que se sobrepõem ao espaço urbano formal. Além do território legal e administrativo, consolida‑se uma camada digital, baseada em dados e algoritmos, e uma terceira camada marcada pela gestão privada de espaços supostamente públicos. Empresas de segurança, condomínios e associações de moradores passam a monitorar ruas e praças, estabelecendo regras próprias de acesso, permanência e circulação…

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